Spa para a Mente

Quando a mente se abre a uma nova ideia

Numa das regiões mais inóspitas e áridas de França, uma vez um homem com o seu esforço solitário, constante e paciente, pelos seus próprios meios e uma generosidade sem limites, fez surgir do nada uma floresta inteira. Um único homem, Elzèard Bouffier, viúvo e solitário, constatou que a região nos Alpes onde vivia estava a morrer por falta de árvores e decidiu reflorestá-la ao longo de vários anos, mesmo sabendo que a terra não lhe pertencia. O Homem que Plantava Árvores é um livro de Jean Giono, inspirado em acontecimentos verdadeiros. Nos anos 50, o escritor francês criou uma história para ilustrar a capacidade do ser humano de agir e influenciar o mundo à sua volta para resolver problemas importantes e negligenciados. Nesta história, Giono chama-nos, em particular, a atenção para uma ideia disruptiva: a dimensão da generosidade. Bouffier sabia desde o início que não viveria o suficiente para usufruir da floresta que durante décadas foi plantando.

O potencial para resolver problemas

Nascemos todos com propensão para descobrir, explorar, aprender, lidar com o desconhecido, construir, desconstruir, voltar a contruir. Quem é que não gosta de aprender? Quem não é curioso? Quem não gosta de ver problemas resolvidos? Bouffier é uma história sobre problemas reais e complexos e o potencial de cada ser humano. Não podia estar mais atual. Face a problemas como a desflorestação, a obesidade nas crianças ou o burnout nos colaboradores de uma organização, qual a solução mais eficaz? Estes problemas são desafios complexos, pois não têm uma única resposta ou respostas fechadas logo à partida. Porém, fazer um puzzle já não é um problema complexo, tem uma solução definida de antemão. Como para problemas complexos não sabemos qual a solução à partida, identificar e definir o problema o melhor possível, é um dos segredos para chegar à melhor resposta.

O problema como motor da aprendizagem

Albert Einstein dizia que se tivesse uma hora para resolver um problema, e a vida dele dependesse da solução, gastaria 55 minutos para formular a questão adequada, porque sabendo a questão certa, consegue resolver o problema em 5 minutos. Talvez tenha exagerado um pouco, de propósito, para enfatizar a importância de compreender bem o problema, da recolha de informação necessária e da interpretação dos dados, para chegar eficazmente à solução. Esta sua atitude revelou-se um sucesso no campo da investigação científica. O cientista revolucionou a Física, mas o legado do pai da Teoria da Relatividade passaria as fronteiras da ciência. Einstein nasceu alemão, e cedo renunciou à sua nacionalidade, para se tornar suíço e mais tarde norte-americano. Ficou conhecido por ser um pacifista, mas sobretudo por se opor ao ensino autoritário e às ideias militaristas que dominavam a Alemanha no início do século XX. Esta postura era transversal aos diferentes desafios que enfrentou. Einstein defendia que “o ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação.” Nesta perspetiva, a resolução de problemas pode ser um motor da motivação, da aprendizagem e da evolução dentro de uma escola, organização ou comunidade. Não é somente quando somos crianças que estamos predispostos a aprender coisas novas, a descobrir, a criar, mas ao longo da nossa vida inteira. Dos fenómenos mais interessantes na aprendizagem, de acordo com o próprio Einstein, é que “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”.

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Três breves histórias, três grandes homens

pré-históricos Rochas

Um apelido pode ser tão perigoso como a cor da pele

A professora começou a fazer a chamada. Quando pronunciou o apelido Rosenberg, dois miúdos fixaram os olhares no colega e perguntaram-lhe se ele era kike. Nunca tinha ouvido tal palavra. Depois das aulas terminarem, os dois colegas estavam à espera dele, atiraram-no ao chão e bateram-lhe.

A escolha

Um prisioneiro roubou batatas. As autoridades do campo de concentração ordenaram que o culpado lhes fosse entregue ou todo o campo seria deixado à fome durante um dia. Os 2500 prisioneiros preferiram jejuar.

Uma viagem arriscada de elétrico

Um dia Nelson Mandela e dois amigos indianos Ismael Meer e J. N. Singh estavam cheios de pressa para chegar a Kholvad House, em Joanesburgo, e apanharam um elétrico, onde os indianos eram tolerados mas os negros não. O condutor disse, em afrikânder, a Ismael e a Singh que o amigo ‘cafre’ não podia estar ali. Os dois reagiram e disseram ao condutor que chamar ‘cafre’ ao amigo era uma ofensa. Ele parou o elétrico e chamou um polícia que os levou presos. No dia seguinte compareceram no tribunal, mas antes tinham pedido para serem defendidos por Bram Fischer, que conheciam da Universidade de Wits. Fischer era descendente de uma influente família afrikânder e, de acordo com Mandela, viria a revelar-se um dos advogados mais sólidos e reconhecidos na luta pela liberdade. Foram os três absolvidos.

Estas três breves histórias aconteceram nos anos 40 e fazem parte dos percursos de três grandes homens: Marshall Rosenberg, Viktor Frankl e Nelson Mandela. Quem são eles e o que têm em comum?

Muito se pode dizer sobre cada um deles. Embora contemporâneos, viveram contextos distintos em três partes do mundo diferentes - EUA, Áustria e África do Sul. Os três foram construindo conhecimento e novos caminhos para a paz.

Norte-americano, descendente de uma família judia, Marshall Rosenberg cresceu num turbulento bairro em Detroit, EUA, numa era de intensos conflitos racistas. Foi desde aquele episódio na escola, em 1943, que ele se começou a interessar por estudar o comportamento humano e novas formas de comunicação, alternativas à violência que encontrava. Mais tarde formou-se em Psicologia e fez o doutoramento em Psicologia Clínica, tendo sido mentorando e amigo de Carl Rogers. Criou um processo centrado nas pessoas que facilita a comunicação interpessoal e a resolução pacífica de conflitos, uma metodologia a que chamou Comunicação Não Violenta (CNV). Fundou uma organização para a promoção da paz representada em mais de 85 países - o Centro de CNV – com formadores a trabalhar com diferentes grupos de profissionais. Viajou por todo o mundo, sobretudo para países devastados pela guerra e em contextos de pobreza, a dar a conhecer a CNV, a dar formação e a mediar conflitos.

Em Viena, na década de 40, Viktor Frankl, austríaco, neuropsiquiatra, professor de Neurologia e Psiquiatria, foi levado, como muitos outros judeus alemães e de leste, pelos militares nazis. O médico sobreviveu a quatro campos de concentração e, como ele afirmou, foi “testemunha da inesperada capacidade dos seres humanos para desafiarem e enfrentarem corajosamente até mesmo as piores condições imagináveis”. Antes de ter sido feito prisioneiro, tinha criado uma nova abordagem de psicoterapia que se centra no sentido da vida. Viktor Frankl foi o fundador da terceira escola vienense de psicoterapia, a Logoterapia e Análise Existencial. Dos campos de concentração, trouxe não só a história de superação pessoal, mas também as evidências de que “a vida tem potencialmente significado em quaisquer circunstâncias, mesmo nas mais miseráveis.” A história das batatas roubadas, assim como as histórias que Frankl conta dos poucos prisioneiros que foram de caserna em caserna para confortar os outros, dando pedaços de pão, “constituem prova suficiente de que tudo pode ser tirado a um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas, a possibilidade de escolhermos a nossa atitude em quaisquer circunstâncias, de escolhermos a nossa maneira de fazer as coisas”.

Aquele que viria a ser o presidente da África do Sul em 1994, Nelson Rolihlahla Mandela, foi o líder revolucionário da resistência não violenta ao regime do apartheid. O seu ativismo político pelos direitos humanos dos negros custou-lhe 27 anos de vida na prisão. Na biografia que escreveu, Mandela refere que não pode indicar o momento preciso em que se converteu à política, porque “ser negro na África do Sul significa ser politizado desde que se nasce, quer se admita quer não. Uma criança nasce negra num hospital só para negros, é levada para casa num autocarro só para negros, vive num bairro só para negros e frequenta uma escola só para negros, isto para os que vão à escola.” A história dele e dos amigos no elétrico em Joanesburgo é apenas um dos milhares de episódios que se acumularam na sua vida e que lhe alimentaram a vontade de lutar contra um sistema que acorrentava todo um povo, de dedicar a sua vida à luta pela liberdade. Antes de ser preso, Mandela, ao mesmo tempo que trabalhava num escritório de advogados, completou o bacharelato em Direito na Universidade de Witwatersrand (Wits). No escritório teve pela primeira vez o contacto regular com brancos, mas foi a universidade que o fez conhecer pessoas, na maioria brancas, da mesma idade “resolutamente dedicadas à luta pela liberdade e que estavam dispostas, mal-grado a sua situação priveligiada, a sacrificar-se pela causa dos oprimidos”. Durante décadas, Nelson Mandela lutou “contra a dominação branca e contra a dominação negra” e, com outros ativistas, políticos, cidadãos, foi construindo uma visão de um país unido, democrático, em que as pessoas das várias etnias poderiam viver juntas. Recebeu o Prémio Nobel da Paz de 1993.

A viverem em países distintos e bem distantes, Mandela, Frankl e Rosenberg, escolheram claramente abordagens pacíficas e corajosas perante os contextos desafiantes que viveram. Os três tiveram em comum visões mais humanas e construtivas do nosso mundo e dedicaram as suas vidas a concretizar com sucesso essas mesmas visões.

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“Olhemos para cima”

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Quando era criança gostava do espaço, das estrelas e dos dinossauros. Mae Jemison cresceu em Chicago, nos E.U.A., durante os anos 60, em plena era ‘Apollo’, a fase conhecida pelo enorme encantamento com a ideia do Homem ir ao espaço. Foi também a época do movimento pelos direitos civis e do movimento pelos direitos das mulheres.

A miúda que adorava ciência e de compreender o mundo à sua volta, aos 31 anos tornar-se-ia a primeira mulher astronauta afro-americana. De acordo com a própria Mae, esta curiosidade pelo mundo acontece com as crianças em geral e o que faz a diferença é querer transformar essa curiosidade numa atividade ou percurso profissional. A verdade é que já em criança, Mae  ficava muito irritada com o facto de não haver uma mulher astronauta (Valentina Tereshkova seria a primeira mulher a ir ao espaço em 1963) e não se deixou convencer com as explicações limitadas que lhe davam para justificar aquela realidade.

“Eu conseguia ver-me no espaço, enquanto que os outros não. Tive de aprender a não me colocar limites por causa da ‘imaginação limitada’ dos outros.”  (Mae Jemison)

A par da sua dedicação ao estudo, a cientista revela ter começado a aprender logo desde criança uma atitude mental progressiva. Em vez de colocar limites, colocava lentes que a permitiam ver mais longe, alimentava a paixão pelo que fazia e esforçava-se intencionalmente. Queria aprender mais, evoluir, e inspirava-se na vida e com outras pessoas. Numa entrevista ao DN, aquando da sua visita a Portugal em 2018, Mae confessou que ser astronauta nunca foi um sonho: “Eu parti do princípio de que um dia iria ao espaço, e isto não tinha que ver com ser astronauta. Naquele tempo, a corrida espacial era algo muito presente. Mas também assumi que poderia ser arquiteta ou dançarina, não como sonho mas como algo que era alcançável.”

 

Em 1987, Mae Jemison foi a primeira mulher afro-americana admitida no programa para astronautas na NASA. Em 1992 fez a sua primeira viagem ao Espaço a bordo do Endeavour.

Antes desses dois grandes passos, formou-se em estudos afro-americanos e em engenharia química, e uns anos mais tarde em medicina. Antes de ser astronauta, ainda trabalhou como médica voluntária num campo de refugiados no Cambodja e na Peace Corps na África Ocidental, e exerceu clínica geral em Los Angeles. Após seis anos na NASA, Mae fundou o Jemison Group, Inc., uma empresa de investigação, desenvolvimento e implementação de tecnologias para a resolução de problemas em diversas áreas, como satélites para melhorar serviços de saúde em África, projetos de energia solar, projetos de literacia científica para jovens, serviços de consultoria a agencias espaciais internacionais, entre outros.

Com sentido de humor, diz estar cansada de ouvir falar “disto dos primeiros afro-americanos (…) porque não se trata de ser o primeiro, mas sim do que fazer com o nosso lugar à mesa.”

Uma das suas maiores aprendizagens enquanto mulher negra, cientista, engenheira, dançarina, médica, astronauta e professora, foi que todos partilhamos este planeta. A ex-astronauta, que se tem dedicado à educação de jovens para a ciência e para a intervenção no nosso planeta, mais recentemente cocriou um projeto chamado “Look Up” que nos convida a todos a olhar para o céu e a conectarmo-nos uns com os outros. Através de uma app – Skyfie - cada um de nós pode partilhar fotos do céu em todo o mundo. “Temos de assumir as nossas responsabilidades como indivíduos. E o que aprendi ao longo dos anos foi que temos de envolver as pessoas.”

A cientista diz que contemplar o céu, pode mudar-nos. Quando lhe fazem perguntas sobre de onde lhe veio a inspiração, Mae diz que a inspiração vem da vida e deixa uma mensagem forte aos adultos: “É possível encontrar inspiração em muito do que nos rodeia. O grande ponto é como não desinspirar as crianças. Não devemos tirar-lhes o entusiasmo por tudo o que as rodeia.” “Look up”, “Olhemos para cima”, é o desafio de Mae Jemison para nos recordar que todos temos o mesmo céu, que partilhamos este planeta e que cada um de nós tem um papel a desempenhar.